Triagem do SAS Brasil em quilombo do TO tem até travessia de equipamentos em balsa

Por Gabriela Freire Valente, coordenadora de Comunicação SAS Brasil Sertões 2019

Acolhedora dos que desbravam o Parque Estadual do Jalapão, a pacata cidade de São Félix do Tocantins foi nossa primeira parada da missão de triagem para a ação que acompanhará o 27º Sertões, em agosto. A 1.922 km de São Paulo (SP) e 253 km da capital do Tocantins, Palmas, São Félix recebeu os voluntários com muito carinho e a típica hospitalidade sertaneja.

O Jalapão guarda cenários deslumbrantes (foto: Turismo Tocantins)

A chegada da nossa equipe na cidade era especialmente aguarda por Fernanda Rego, coordenadora da Unidade Básica de Saúde (UBS) local. Aos 27 anos, Fernanda descobriu uma lesão pré-cancerígena no colo do útero (NIC III), graças ao rápido diagnóstico em um serviço privado de saúde. Apesar de ter tido acesso ao teste Cobas e a tratamento, ela precisou retirar parte do colo uterino, o que lhe causou complicações na gestação da pequena Maria Clara, hoje com 2 anos.

Fernanda (de camiseta preta) recebe pacientes para a triagem do SAS Brasil

“É muito importante o SAS Brasil realizar essas ações aqui. Esse é um exame que não é disponibilizado pelo SUS [Sistema Único de Saúde] e que eu tive que pagar”, contou. “Com a ação de vocês, a população terá acesso gratuito ao exame, tornando o diagnóstico rápido e o tratamento mais oportuno. Isso salva vidas, salva famílias e isso é doar amor”.

O entusiasmo de Fernanda com a ação do SAS Brasil na cidade cresceu ainda mais quando ela soube que o exame oferecido pela nossa equipe, o Cobas, é capaz de detectar e tipificar o vírus HPV, causador do mesmo tipo de lesão cancerígena que ela teve. Com um diagnóstico precoce, o risco de desenvolvimento da doença é reduzido. Além disso, ao ter o resultado negativo, a paciente pode ficar até 5 anos sem voltar para a fila da saúde ginecológica.

Balsa para cruzar o rio

São Félix estava havia cerca de ano e meio sem exames preventivos. Em apenas uma manhã, fizemos a coleta de 56 testes Cobas – o número supera a meta de 40 exames anuais estabelecida para o município. Desses exames, cinco foram coletados na comunidade quilombola de Boa Esperança, no município vizinho de Mateiros.

Cerca de 40 famílias vivem no vilarejo de acesso difícil, ruelas tomadas por areia branca e uma vista deslumbrante do Jalapão. Para chegar até lá, nossas voluntárias deixaram as caminhonetes em uma das margens do Rio Soninho e embarcaram com todos os equipamentos em uma balsa rústica. Para atravessar o rio, era preciso puxar a balsa por uma corda e rebocá-la no muque até o outro lado, onde a equipe era aguardadas por Adão Ribeiro Cunha, presidente da Associação de Comunidades Boa Esperança, e sua filha Diarla, de apenas 15 anos.

Balsa com equipamento foi rebocada no braço para levar equipamentos para o quilombo

O atendimento no quilombo foi realizado em uma escola construída em 2017, onde estudam 20 crianças. Diarla, apesar da pouca idade, estava à frente da organização das salas e se engajou na convocação das mulheres, como Domingas Gomes, de 47 anos, que nunca havia feito um exame ginecológico na vida, e Odalice Gomes, de 44, que havia feito seu último exame preventivo 10 anos atrás.

Cerca de 40 famílias vivem na comunidade quilombola de Boa Esperança, em Mateiros

Depois de conhecermos as dificuldades de deslocamento da população de Boa Esperança, visitamos a casa de Claudete Gomes da Silva, 60 anos. À sombra de uma mangueira, ela nos contou a história do quilombo e de como o artesanato feito com capim dourado foi importante para a subsistência das famílias da região. Hoje, a arte do capim já está disseminada por toda a região.

A família da dona Claudete (de camiseta branca) recebeu a equipe do SAS Brasil na cidade

Hospitalidade e carinho

De volta a São Félix, nossas duas últimas pacientes da ginecologia ganharam um lugar especial no coração de cada um de nós. Joana e Cláudia foram as cozinheiras que nos alimentaram com o melhor feijão e o melhor frango frito da redondeza, além de nos encher de carinho. O atendimento delas foi feito na casa em que nos hospedamos, cedida pela enfermeira Emmanuela Batista de Figueredo e sua família.

Deixamos outros 40 kits na UBS local para que mais coletas sejam feitas até o nosso retorno, durante o 27º Sertões, em agosto. Além dos exames ginecológicos, lesões de pele suspeitas de câncer também foram avaliadas e fotografadas. As imagens foram enviadas para a equipe do Hospital de Amor (antigo Hospital de Câncer de Barretos), referência em oncologia no Estado de São Paulo. Ao todo, 15 pessoas foram atendidas no serviço dermatológico.

Com a pele castigada pelo sol forte do Jalapão, Iraci Vieira da Silva, de 67 anos, mãe de 14 filhos – quatro deles já falecidos – perdeu a visão para o glaucoma e a catarata. Apesar da dificuldade para caminhar e escutar, o astral de Iraci permanece elevado. “Tive todos os meus filhos no mato e não tomei nenhum remédio para tê-los!”, vangloria-se.

Dona iraci é atendida pelos profissionais locais que acompanharam a triagem do SAS Brasil

Sem o tratamento adequado, a visão de Iraci acabou comprometida. Para evitar que o mesmo aconteça com as crianças que correm pelas ruas de areia e terra vermelha de São Félix, capacitamos os professores da rede pública de ensino local para que eles façam testes de acuidade visual em seus alunos. O plano é que os professores identifiquem quais crianças apresentam limitações de visão para que elas sejam examinadas por nossos oftalmologistas voluntários, também durante o 27º Sertões.

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